Uma trégua negociada por
Washington e Moscou deve permitir, a partir da tarde desta segunda, o cessar
dos combates em parte da Síria, mas a poucas horas de sua entrada em vigor, a
oposição ainda não havia dado seu apoio à decisão.
O
presidente sírio Bashar al Assad também reduziu as esperanças de um
rápido cessar dos combates ao declarar nesta segunda que quer recuperar todo o
território que ainda não está sob controle de seu regime.
"O
Estado sírio está determinado a recuperar todas as regiões que estão nas mãos
dos terroristas e a restabelecer a segurança", declarou Assad à imprensa
estatal durante uma visita ao ex-reduto rebelde de Daraya, perto de Damasco.
O regime
utiliza a palavra "terrorista" para fazer referência a rebeldes e
jihadistas.
"As
Forças Armadas vão continuar seu trabalho sem hesitação (...) e independente
dos fatores externos e internos", completou Assad, a poucas horas do
início do cessar-fogo, incluindo os ataques aéreos, programado para 19H00
locais (13H00 de Brasília).
"Existem
aqueles que têm ilusões e há cinco anos não se livraram das ilusões",
afirmou o presidente sírio, a respeito da oposição, de acordo com declarações
divulgadas pela agência oficial Sana.
"Alguns
apostavam em promessas do exterior", disse, em referência aos apoiadores
da oposição, como Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Arábia Saudita ou
Turquia.
"Estas
promessas não se concretizarão", concluiu.
A
oposição síria, por sua vez, pediu garantias sobre a aplicação da trégua.
"Queremos
saber quais são as garantias. Esperamos que existam garantias e pedimos
garantias especialmente dos Estados Unidos, que é parte envolvida no acordo de
trégua", afirmou à AFP Salem al-Muslet, porta-voz do Alto Comitê de
Negociações (ACN) da oposição síria.
O anúncio
da trégua na sexta-feira (9) aconteceu após semanas de negociações entre
Estados Unidos e Rússia, que apoiam respectivamente a rebelião e o regime, e no
momento em que os insurgentes passam por dificuldades militares, depois de uma
derrota na última batalha de Aleppo.
"Estamos
revisando completamente (o acordo). É realmente importante conhecer os níveis
de compromisso de todas as partes no acordo, especialmente os Estados",
disse Muslet.
"Qual
é a definição escolhida para "terrorismo" e qual será a resposta em
caso de violação?", questiona.
Segundo o
acordo, Rússia e Estados Unidos concordaram em atacar em conjunto os
extremistas, caso a trégua seja respeitada.
O
influente grupo rebelde islamita sírio Ahrar al-Sham, por sua vez, rejeitou o
acordo de trégua entre Estados Unidos e Rússia, alegando que servirá apenas
para "reforçar" o governo de Damasco e "aumentar o
sofrimento" do povo.
Ahrar
al-Sham foi o primeiro grupo rebelde a reagir oficialmente ao acordo firmado
esta semana entre russos e americanos, em Genebra. Os demais grupos rebeldes -
islamitas e não islamitas - e a oposição política ainda não deram uma resposta
oficial.
"O
povo (sírio) não pode aceitar soluções pela metade", afirmou Ali el Omar,
subcomandante-geral do grupo, em discurso divulgado no YouTube por ocasião da
Aid al-Adha, a Festa do Sacrifício, que se celebra amanhã.
"O
acordo russo-americano (...) faz evaporar todos os sacrifícios e avanços do
nosso povo em revolta. Apenas contribui para reforçar o governo e encurralar
militarmente a revolução", denunciou.
Ele
rejeitou ainda o segundo ponto do acordo, em virtude do qual Washington deveria
convencer os rebeldes a se dissociar de um importante aliado extremista - a
Frente Fateh al-Sham (ex-Frente Al-Nusra). Este último, afetado pelo acordo
apenas de forma indireta, também reagiu no Twitter.
"É
simples. O acordo russo-americano trata da eliminação daqueles que protegem os
sírios", indicou Mostafa Mahamed, um de seus porta-vozes, referindo-se ao
grupo.
A
resposta da oposição pode ter sido influenciada pela série de bombardeios
aéreos de sábado, poucas horas depois do anúncio do acordo.
Os
ataques mataram pelo menos 62 pessoas, incluindo 13 crianças, na cidade rebelde
de Idleb (noroeste), no momento em que os moradores faziam as compras para
celebrar o Aid El-Adha, de acordo com um balanço do Observatório Sírio dos
Direitos Humanos (OSDH), que não teve condições de identificar os aviões
envolvidos nos bombardeios.
Também
foram registrados bombardeios contra os bairros rebeldes de Aleppo (norte),
onde 12 pessoas morreram, e contra outras localidades da província de mesmo
nome, que deixaram 18 mortos.






