Cientistas
descobriram que é possível combater tumores cancerígenos utilizando células do
sistema imunológico de uma pessoa saudável no corpo de uma pessoa com a doença.
A pesquisa com a descoberta foi feita pelo Instituto de Câncer da Holanda e
pela Universidade de Oslo, na Noruega, e publicada semana passada pela
revista Science.
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| Foto: reprodução |
Os
pesquisadores observaram que ao inserir em laboratório componentes de
células do sistema imunológico de um doador saudável nas células de um paciente
com câncer é possível fazer com que seu organismo reconheça os
tumores e passe a atacá-los. A pesquisa foi feita com três pacientes
com melanoma, um tipo de câncer de pele.
É
função dos linfócitos T diferenciar células do organismo de corpos estranhos.
Quando esses corpos são reconhecidos, são desencadeados estímulos imunológicos
que destroem ou eliminam o invasor. O problema é que nem sempre as células
imunológicas reconhecem o câncer como um invasor. Isso permite a sua
proliferação pelo corpo.
"A célula tumoral é traiçoeira. Ela tem algumas
técnicas para desligar e escapar do sistema imunológico", afirma Denyei
Nakazato, oncologista do Hospital Sírio-Libanês e do Icesp (Instituto do Câncer
do Estado de São Paulo).
Para
avaliar essa capacidade de reconhecimento pelos linfócitos T, os pesquisadores
mapearam todos os antígenos que poderiam estimular uma resposta às células de
câncer de pele de três pacientes. Antígeno é toda substância que, ao entrar no
organismo, é capaz de iniciar uma resposta imune, ativando os linfócitos.
Os
linfócitos T dos pacientes com a doença deixavam passar despercebido fragmentos
estranhos de células tumorais. Já linfócitos derivados de voluntários saudáveis
conseguiram detectar um número significativo de antígenos.
Avanço
de técnicas
Para
Alex Meller, urologista da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o
estudo é promissor, apesar de envolver apenas três pacientes. Ele afirma que
uma técnica parecida já havia sido testada com tumor de rim no Hospital
Sírio-Libanês, mas teve uma resposta pouco eficaz. A novidade com o novo estudo
seria a sugestão de transferir as células entre pacientes imunologicamente
parecidos por meio do sangue.
"No
teste no Brasil, as próprias células do paciente acabaram reconhecendo as novas
como anômalas e acabava havendo uma reação. O potencial de matar o tumor
diminuía porque o paciente reconhecia aquilo como estranho", diz.
Rafael
Schmerling, oncologista clínico do Hospital São José da Beneficência Portuguesa
de São Paulo, acredita que esse também é um risco para o novo
estudo. "O paciente pode reconhecer essas células como estranhas. Mas
se elas viverem, começam a crescer, se multiplicar e fazer parte do sistema
imunológico da pessoa", afirma.
Schmerling
define o novo estudo europeu como um avanço de técnicas com conceitos que já
vinham sendo utilizados. Segundo
ele, a estratégia mais recente de terapia celular para o combate ao câncer
consiste em modificar as células do próprio paciente para que as proteínas do
tumor sejam reconhecidas pelo sistema imunológico.
"Nesse
estudo, em vez de 'ensinar' as células do próprio paciente os cientistas
estão pegando as células competentes de outras pessoas para combater o
tumor", analisa.






